A briga pelo futebol e a falta de criatividade nas mídias

Crédito imagem: Site 'Esporte e Mídia'

*Por Ramiro Gonçalez

Para quem está acompanhando, como telespectador, a briga pelo campeonato brasileiro de 2012, parecem um exagero as cifras envolvidas no negócio.

Especula-se que o valor de cada cota (se adquirida individualmente por cada clube) pode chegar a R$ 70 milhões, contra os R$ 500 milhões oferecidos ao clube dos 13 pelo consórcio GLOBO-BAND. Os valores exagerados disfarçam a real motivação para ter o direito de transmissão do campeonato brasileiro.

O que está escondido atrás dessa briga é a desesperada  busca pela atenção do usuário de mídias.

Conhecemos a enorme dispersão que acomete a TV aberta, portanto conseguir um conteúdo que possibilite conquistar a atenção do usuário é uma meta dos gestores dos veículos.  Como conteúdo que possibilite a retenção da atenção é escasso, sua exclusividade é cara.

O futebol é um dos poucos conteúdos que têm características atrativas para o anunciante num universo onde a TV ABERTA compete com as mídias digitais. Mas quais são essas características que fazem o futebol tão disputado?

1) 1) Fidelidade do usuário;

2) Penetração em todas as classes sociais;

3) Possibilidade de inserir marca durante a exibição do conteúdo;

4) Exibição em multi-plataformas.

É o santo graal para o anunciante nos próximos anos. Especialmente com a possibilidade de migrar a audiência para o evento principal: COPA 2014.

Portanto não assusta o valor envolvido (e nem o  debate que traz sobre o direito do telespectador versus o interesse do veículo e do anunciante). Começam a ficar claros os evidentes conflitos de interesse entre meios, veículos, anunciantes, geradores de conteúdo (times de futebol) e usuários. Nada de novo. Isso sempre existirá.

O que parece miopia é verificar VEÍCULOS focando todos os esforços num conteúdo como o futebol. Apesar da inquestionável supremacia do futebol sobre os outros conteúdos, essa busca pelos direitos pelo futebol mostra claramente a crise pela qual a TV brasileira passará. O Brasil já foi campeão mundial em outro formato: as novelas. Pouco a pouco esse formato vem perdendo força.  O futebol está se tornando inviável: seu ROI para o veículo ficará muito baixo nessas condições negociais. Estratégia é tentar criar novos caminhos. Entretanto é preciso criatividade (e coragem) para experimentar novos formatos.

O difícil caminho para formatos na TV ABERTA

Os processos que podem inovar na criação de novos formatos têm algumas características: são aleatórios, pouco replicáveis e gerados por indivíduos sem nenhum apego às mídias tradicionais. Isso explica também a grande ocorrência de insucessos entre as novas ideias. Mas será assim mesmo: 1 sucesso para cada 10 erros. Por isso é fácil entender a resistência dos executivos em perceber o que está acontecendo. Os profissionais que têm o poder de decisão foram criados no auge da TV aberta e das mídias impressas no Brasil. É um conforto trabalhar com conceitos familiares. Entretanto, quem tem a intenção de viver o futuro não pode se amarrar ao passado. O que não pode ser confundido com aceitação cega das novidades. Meu conselho: mantenham sempre na equipe alguém familiarizado com o mundo virtual e deixe espaço para as ideias malucas que trouxer. Uma delas vinga!

***

*Ramiro Gonçalez é Professor de Inteligência de Mercado e Mídias da FIA e Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Autor do livro: “Que Crise é Essa?” . Também edita o blog ‘Que Mídia É Essa?’.

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9 Comments

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  1. andrea martinez 06/03/2011 — 12:20

    finalmente a verdade sobre a “guerra do futebol”. realmente muito dinheiro. enquanto produções culturais, nada…

    • Lanna Morais 06/03/2011 — 16:00

      Fora as cifras que rolam bem por baixo do pano e que ainda não tomamos conhecimento. A ‘indústria’ do futebol neste país segue a cartilha da indústria da política. Bjs, Lanna.

  2. Laura Fernandes 06/03/2011 — 18:06

    sou produtora de tv e estou tentando descobrir esses “novos formatos”. onde posso ter exemplos? Laura

  3. RAMIRO GONÇALEZ 06/03/2011 — 18:39

    Laura, pergunta onde a resposta vale milhões de dólares… Realmente não sabemos, mas indico estudar sistemas descentralizados ou com baixa hierarquia.
    O livro “The Starfish and the Spider” traz algumas características de sistemas em rede (ou sem hierarquia):

    • Interesse genuíno nos outros;
    • Inúmeras conexões fracas ao invés de poucas conexões fortes;
    • Habilidade de mapeamento social;
    • Habilidade de ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas (ouvindo e compreendendo) ao invés de dar conselhos –> (aqui uma incoerência da minha parte…);
    • Confiança nos outros e na rede;
    • Inspiração (para os outros);
    • Tolerância para a ambigüidade;
    • Abordagem “hands-off” – não interferir ou tentar controlar o comportamento dos membros da rede;
    • Desapego – habilidade de passar o controle adiante ao invés de tentar tomá-lo para si.

    Estamos tateando o assunto. Gosto muito do exemplo do twitter que não existia na copa 2006 na Alemanha e foi um sucesso na COPA 2010.
    Espero ter ajudado

  4. RAMIRO GONÇALEZ 09/03/2011 — 17:07

    A FSP de hoje estima que as ofertas para o BRASILEIRÃO cheguem a R$ 1 Bilhão. Deste modo a margem de contribuição (lucro bruto) irá despencar. De produto (o Brasileirão) mais lucrativo poderá se tornar deficitário. Os anunciantes podem começar a fazer contas e considerar que o ROI no produto é baixo. A boca grande engole a própria criatura.
    veja link – http://www1.folha.uol.com.br/esporte/886350-propostas-por-direitos-do-brasileiro-chegam-a-r-1-bi-diz-c13.shtml

  5. Ramiro,

    Otimo texto. Acredito que essa briga não proporcionará um ROI deficitário.

    Acredito que os anunciantes forçarão um engajamento e um retorno muito maior dos veículos e consequentemente dos clubes.

    Isso é bom por um lado, que pode fazer os clubes sairem do marasmo de seus departamentos de marketing, e ao mesmo tempo ruim porque vão tentar tantas coisa e um espaço tão pequeno de tempo que será perigoso e poderá tirar toda a credibilidade do evento.

    Abs

  6. RAMIRO GONÇALEZ 10/03/2011 — 15:04

    Olá Guilherme, é isso mesmo. Vamos todos que ter criatividade para usar “tantas coisas em um espaço tão pequeno de tempo”. O debate que é importante.
    grande abraço
    Ramiro

  7. COMO PARTICIPAR NAS EDIÇÕES DO EPISÓDIO CULTURAL?
    O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral sem fins lucrativos, distribuído na região sul de Minas Gerais, São Paulo (capital), Belo Horizonte, Salvador-BA e Rio de Janeiro. Para participar basta enviar um poema, um conto; ou matérias sobre esporte, moda, sociedade, curiosidades, artesanato, artes plásticas, turismo, biografias, sinopses, curiosidades, folclore, saúde, artes cênicas e dramáticas, música, fotografia, etc (em Times Roman 12).
    Favor anexar uma fotografia sua, ou alguma imagem relacionada ao conteúdo. Caso o artigo não seja seu, favor informar a fonte.

    PARA ENTRAR COM CARLOS (Editor)
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    machadocultural@gmail.com
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  8. RAMIRO GONÇALEZ 07/04/2011 — 13:59

    GLOBO já revê seus planos financeiros e a rentabilidade com o BRASILEIRÃO.
    Já havíamos adiantado que os valores desproporcionais para o patrocínio eram uma solução pouco inteligente. Agora o depto comercial da GLOBO reconhece o exagero. Geração de conteúdo e modelo de negócios precisam conversar mais -> http://todamidia.folha.blog.uol.com.br/

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