Jornalistas blogueiros x Leitores: relacionamento em debate

Meu colega Ramiro Gonçalez pegou dois blogs que tratam do mesmo tema, futebol, e analisou a interatividade dos donos com seus leitores. Ao fim faz questionamentos interessantes sobre a proximidade ‘ilusória’ que blogs e/ou redes sociais criam entre as pessoas, mais precisamente jornalista x público. Gostaríamos de saber sua opinião.

Segue o texto dele.

__________________________________

Por Ramiro Gonçalez*


A partir de uma experiência pessoal pude avaliar  como são as novas (?) regras sociais na WEB e como elas podem gerar um modelo de negócios

Estávamos no período pré-copa e uma jornalista da FSP que eu seguia fez um post  despretensioso  no twitter, no qual dizia  ter intenção de torcer pela Argentina na Copa.

Pensando estar numa mesa de bar, eu respondi como se estivesse interagindo com um velho amigo que insinua torcer para um time rival.

De forma impensada twittei (respondendo diretamente à jornalista):

– Procure urgente um Pronto Socorro.

Impulsivo e sem nenhuma reflexão esqueci algumas condições do contexto dessa mensagem:

1) Todos meus seguidores iriam ver a mensagem (como diz a 2a DO TWITTER : Twitter não é email)

2) Não estávamos num bar;

3) Não tenho intimidade para fazer um comentário como este.

A resposta da jornalista ensinou mais que 1000 treinamentos de etiqueta. Ela postou:

– acabo de receber uma msg preconceituosa. Cliquei unfollow. Simples assim.

Tirei algumas lições do episódio:

1) Entender que existe o risco, ao criar um blog, de  que parte dos usuários fantasiarem uma proximidade que não existe;

2) Que na comunicação em rede a punição por quebra de regras sociais básicas  é a perda de reciprocidade.

Desde então tento estudar se o evento era uma caso isolado ou se outros blogs e usuários enfrentam os mesmos problemas.

Análise

Comecei a analisar os blogs. Defini 2 tipos de Blogs:

a) Blogs  Coluna: O emissor (jornalista ou não) publica posts e NÃO interage. Pode até permitir comentários, mas não os responde. Exemplos: Blog do Juca Kfouri ou do Sardenberg (não analisei se o fato de não responder era a impossibilidade física em responder centenas de comentários);

b) Blog interativo: O emissor têm a preocupação em responder aos comentários individualmente e até gerar posts baseados em comentários dos usuários. Exemplos: Blog Novo em Folha, Blog do Birner e Blog do LULI.

Como o BLOG NOVO EM FOLHA é atípico (tem uma função e público específico e restrito), fiz um estudo comparativo entre os BLOGS Juca Kfouri e Birner. Motivo: ambos falam de futebol para um público amplo.

Definição da Pesquisa

O mais difícil foi tentar definir o que seria intimidade/proximidade. Busquei conteúdos que denotassem elos entre o emissor – usuário

(ex: “Olá Juca , estamos JUNTOS na luta contra Ricardo Teixeira…” n.a.: O Juca nunca pediu que se unissem a ele em qualquer comentário.)

Outro tipo  de comentário que revelasse intimidade era localizar o emissor e usuário num mesmo espaço ou numa mesma situação

(ex: “Olá Birner, estive também no estádio do Pacaembu próximo as cabines de transmissão da CBN … NA: O birner não trabalha mais na CBN desde  abril)

Evidente que existe  subjetividade em analisar se uma mensagem tem um grau intimista. Entretanto o viés  subjetivo é o mesmo para os dois blogs.

Realizei uma pesquisa durante a COPA DO MUNDO  2010, analisando quantitativamente a natureza dos comentários postados nos 2 blogs.

Resultados  da Pesquisa:

Em%                                                    BlogJUCA         BlogBirner

Comentários intimistas:                          43                     67

Comentários feedbacks*:                        12                     54

(*comentários que são feitos após retorno do blogueiro ou de outros usuários. NOTA JUCA Raramente retorna comentários, mas existem vários interações entre comentaristas/usuários.)

Comentários fidelidade**                        14                      38

(**feitos rotineiramente – a pelo menos 2 dias e/ou 2 posts- pelos mesmos usuários)

Nota: % em relação ao total de comentários – dados coletadados ente 11 de junho e 12 de julho de 2010.

Os resultados mostram que a interatividade blogueiro-usuário e/ou usuário-usuário GERA MAIOR ENGAJAMENTO dos usuários. Mesmo que haja uma atitude negativa nos comentários a interatividade parece gerar Intimidade e Fidelidade ( Um subproduto interessante, mas que ainda não comprovei os comentaris negativo tende a ser mais fiel -> em outras palavras usuário chato retorna…)

Quais implicações disso?

1ª) Modelo de negócios: Blogs com níveis elevados de participação e que se propõe a gerar interatividade  PODEM cobrar por acesso (por isso minha pergunta a Cris no BLOG). É  possível (e desejável) que haja um controle de acesso a comentários. Exemplo: para comentar deve ser assinante UOL  e ser cadastrado (ou jornalista, trainee e outros). Isso gera desejo no consumidor em ser assinante do serviço e pode ser uma fonte de receitas;

Vantagens:  Gerar comentários pertinentes e/ou relevantes (uma vez que há um custo econômico ao fazê-lo)

Desvantagens: Em blogs com poucas visitas gerar afastamento.

2ª) Modelo de Jornalismo:Essa intimidade com o jornalista pode causar um percepção de influência na pauta  do jornalista. É nesse ponto que não consegui formular as hipóteses se isso é bom ou ruim para o jornalismo.

Afinal um jornalista interagir é uma ação positiva e isenta? O jornalista não deveria interagir? Quais limites ou regras existem nessa interação? Ao interagir pode gerar percepção de intimidade?

*Ramiro Gonçalez é Mestre em Ciências da comunicação FIA USP Engenheiro Produção – POLI. Responsável Inteligência de Mercado – FIA USP. Fundador do Grupo de Engenheiros de Produção da Poli. Membro Conselho editorial ABA – ABEP. Autor do livro “Que Crise é Essa?”. Também edita o blog ‘Que Mídia É Essa?’.

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8 Comments

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  1. Ótima análise, traz uma questão interessante para o mundo 2.0 e ainda mais para os jornalistas que frequentam esse espaço virtual. Minha visão quanto aos questionamentos colocados:
    1- O jornalista interagir com o leitor pode ser algo positivo ( esclarecendo algum ponto, afirmando sobre o que se trata o texto) e isenta ( enaltecendo os vários pontos da matéria), mas cada caso é um caso, ainda mais quando falamos em opiniões e interações. Pode vir a acontecer de o leitor, ao comentar, e ser “repreendido” se sinta oprimido e lesionado, como também não, afinal, é difícil estabelecer parametros em relações de pessoas e abordagens. Portanto, minha resposta é acaba sendo reflexiva e não propositiva. “Tudo é relativo”.

    2- Indo na mesma linha da resposta anterior, depende muito do canal que estamos falando, há matérias que geram opiniões controversas entre os leitores e a interação do jornalista nesse caso talvez não seja ideal. Talvez fazer o papel de mediador seja o mais correto, mas não vejo uma “receita de bolo” para esse caso.

    3- Acredito já ter tocado nesse assunto e não creio que possamos estabelecer límites ou regras, podemos sim manter em mente os principios de transparência e imparcialidade na hora de fazer esse tipo de interação.

    4- Não só pode, gera. A interação de um jornalista, ainda mais renomados como os citados nessa matéria, causa um elo entre o leitor e o jornalista, por mais imparcial que a interação seja, o diálogo foi estabelecido, gerando uma proximidade e algo que antes do advento da internet, inédito.

    parabéns pela postagem!

    • Lanna Morais 18/08/2010 — 16:33

      Interessante ponto de vista, Luciano. No twitter, dizem que receber um reply de um famoso (ou jornalista) que vc muito admira é o novo autógrafo. As redes sociais propiciam essa possibilidade. Mas em blogs, em particular, acho mais fácil vc ser escutado por um jornalista que admire do que no twitter, por exemplo. Se você se deu o trabalho de ir até o blog dele e fazer suas observações é quase certo que ele vai ter uma satisfação em ler o comentário dependendo do teor, claro rsrs). Mas acho que do lado do blogueiro deve também haver um encantamento pelo leitor, ainda que não seja explícito. É uma via de mão dupla, felizmente. Bjos!

  2. A analise do Luciano foi otima. Especialmente o item 4. Esse e o ponto que exigira muita reflexao entre os jornalistas. Nao sou jornalista e escrevi o post tentando provocar uma reflexao tambem sobre modelos de negocios. Sites com um trafego de comentarios descomunal (como o do Juca) deveria cobrar pelo comentario? Isso nao inibiria patrulhas ideologicos e franco atiradores que passam o dia espinafrando suas opinioes em blogs? O fato de cobrar implicaria na necessidade de resposta pelo blogueiro? Repare que estas sao questoes que nao possuo resposta mas que podem ter impacto na integraçao das plataformas. Obrigado LANNA pelo espaço. Ramiro

    • Lanna Morais 18/08/2010 — 23:15

      Pois é, Ramiro, este é um ponto.Blogs com poucos comentários ou com mais autores são mais faceis administrar. Mas um do alcance como odo Juca, por exemplo, é complicado. E por outro lado, cobrar p/ comentar em blog tira toda a característica da ferramenta. É um impasse. Bjos!

  3. Concordo com você Lanna, hoje há uma busca pela interação, talvez por causa do isolamento social, que não é tão isolado assim, causado pelo uso abusivo da internet. Afinal, estamos sozinhos, em nossos lares, na frente de computadores, porém conectados a milhares de milhares de pessoas, o que me leva a crer que quando essa conecção se concretiza por meio de um “obrigado” que seja, gera um sentimento satisfatório, mas estou indo para o lado da psicologia, estamos falando sobre jornalista e leitores hahaha. Quanto aos questionamentos levantados pelo Ramiro, palpito que 1) Ele é um profissional que está postando conteudo em um portal, portanto será que é ele quem cobra ou o portal que se utiliza do renome dele para fazer isso? (Para comentar em qualquer pagina é preciso ser assinante?) 2) Não seria necessário cobrar, uma ferramenta simples de autenticação, onde a pessoa seria obrigada a “logar” por meio de uma rede social, já barraria uma grande porção de pessoas que são conhecidos como “trolls”. 3) Além disso, há quem habilite a moderação de comentários, o que barraria falas indesejáveis do mesmo jeito. 4)E, finalmente, não acho que o fato de cobrar obrigue o jornalista a cobrar, até porque a pessoa está pagando pelo conteudo e pela possibilidade de expressar sua opinião em um canal oficial do portal. Mas é obvio que, se meu blog cobrasse para que as pessoas comentassem e, mesmo assim, elas o fizessem, eu teria o maior prazer de agradecer. Prazer? Obrigação moral, quem sabe?

    Da mesma forma que você, não tenho as respostas, apenas palpites que talzes se aproximem de uma das várias respostas para esse dilema moral(?).

  4. RAMIRO GONÇALEZ 19/08/2010 — 11:11

    Estamos avançando bastande no tema. Obrigado Luciano e Lanna. Como meu enfoque é remuneração e modelos de negócios no jornalismo fico tentando trazer abordagens que possam remunerar o jornalista. Explico: Existe um paradoxo a mídia on line “rouba” audiência da mídia off line, mas não traz receitas nas mesmas proporções . Resultado -> o jornalista é mal remunerado nas duas mídias/plataformas. A ideia (radical) na cobrança para postar comentários (limitada a blogs tenham volume) é um conceito que tenta trazer algumas oportunidades de receitas. Mas suas observações mostram que este não é o caminho. As receitas devem vir de outras fontes. E aqui vai uma consequência: quem financia os blogueiros profissionais? existem conflitos de interesses? É feito um disclosure das fontes de financiamento? Não tenho as respostas, mas gostaria de ouvi-los. Abraços Ramiro

    • Lanna Morais 19/08/2010 — 12:12

      Ramiro, acho que o caminho para novas fontes de receita seria o desenvolvimento de jornais (ou aplicativos) para plataformas móveis, como o iPad, celulares e seja lá o que mais venha por aí. Murdoch e um ex-presidente da Newsweek estão com a visão certa sim, penso eu. Os aplicativos que NYT, WSJ e outros jornais desenvolveram para iPad tiveram uma boa aceitação do público. Mas acho que é um recurso que vai se esgotar tb. Penso que estamos em frente a uma mata fechada rsrs. Uma outra opção seria oferecer “extras” que só poderiam ser acessados por meio de gadgets: vídeos, música, arquivos culturais, financeiros. Mas demandaria tb investimento por parte dos emissores, sem saber o tamanho do retorno. É tatear no escuro… rs. bjos

  5. Lanna Morais 19/08/2010 — 13:54

    Lanna Morais :

    Ramiro, acho que o caminho para novas fontes de receita seria o desenvolvimento de jornais (ou aplicativos) para plataformas móveis, como o iPad, celulares e seja lá o que mais venha por aí. Murdoch e um ex-presidente da Newsweek estão com a visão certa sim, penso eu. Os aplicativos que NYT, WSJ e outros jornais desenvolveram para iPad tiveram uma boa aceitação do público. Mas acho que é um recurso que vai se esgotar tb. Penso que estamos em frente a uma mata fechada rsrs. Uma outra opção seria oferecer “extras” que só poderiam ser acessados por meio de gadgets: vídeos, música, arquivos culturais, financeiros. Mas demandaria tb investimento por parte dos emissores, sem saber o tamanho do retorno. É tatear no escuro… rs. bjos

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