Brasil: relevante na imprensa internacional?
Por Ramiro Gonçalez*
Estamos acostumados à irrelevância do Brasil no noticiário internacional. As referências costumam ser sobre violência, distribuição de renda ou sobre as commodities brasileiras.
Havia também menções esparsas sobre assuntos como inflação, crise bancária e política. Eventualmente havia alguma menção sobre futebol.
Surpresa, entretanto, numa segunda-feira de janeiro aparecer o Brasil na primeira página da edição impressa do Financial Times. Mais do que isto: o assunto é o mais relevante do jornal inteiro.
Trata-se de uma matéria sobre a possibilidade da “guerra cambial” acabar se tornando guerra comercial. Nenhuma novidade para quem acompanha economia e negócios.
Guerra, câmbio, comércio? Brasil alertando o mundo?
Ingenuidade achar que os governos assistiriam impávidos a um nível de desemprego de 10% nos EUA e de 20% em países europeus (tendo a Espanha na liderança).
A impressão que fica é que o Brasil realmente passou a ser um ator global
A matéria tem principal destaque na página frontal e depois uma página inteira (pág. 6) sobre a guerra comercial e cambial. A foto (em destaque) que ilustra a matéria da página interna (pág. 6) traz notas e moedas de REAL.
Na mesma pagina interna ha uma matéria secundária sobre o Ministro Mantega e a expressão que ele inventou (?): guerra cambial.
O texto: “Does this signal the endof what Mr. Mantega famously termed the global currency war?”
O Brasil já havia sido tema de reportagem de capa da THE ECONOMIST com aquela foto (que se tornará?) antológica do ‘Cristo Decolando’. Várias outras edições do FT já trouxeram matérias especiais sobre o Brasil. Mas isso ocorre com outras economias como China, Índia, África do Sul e, eventualmente, Rússia.
O que surpreende é o TOM da matéria, mostrando uma possível advertência do Brasil ao Mundo.
Nada mais relevante atualmente no mundo que uma guerra comercial. Só participam dessas “guerras” países com “exércitos” relevantes. Podemos entender exércitos como volume de comércio exterior. Não é o caso do Brasil. Representamos apenas 1,6% do comércio internacional e basicamente fornecemos matérias-primas e insumos da cadeia alimenticia ao mundo. Em contrapartida somos importante destino de produtos manufaturados. Mas isso não parece suficiente para um país “alertar o mundo” sobre a possibilidade de uma guerra cambial ou comercial.
Os analistas econômicos (e os jornalistas) estão buscando novas referências, uma vez que as velhas estão confusas. Os editores buscam novos atores para explicar a crise.
A Europa quebrada (com exceção da Alemanha), o Japão Congelado há duas décadas e os EUA na pior crise dos últimos 80 anos abriram espaço para novos protagonistas. A China obviamente seria este protagonista. E em parte é. Ocorre que um misto de falta de credibilidade com baixo nível institucional (afinal, não é uma democracia) destrói parte do espaço que a China poderia ocupar na mídia. Ausência de democracia não é condizente com um país com pretensões globais.
Foi o que abriu espaço para o Brasil que, aos poucos, vai se tornando relevante.
Na mesma edição (no caderno “companies&markets”, pág 23) é possível achar matéria sobre a privatização da INFRAERO com destaque para o aeroporto de Brasília (com acento). A manchete: “Bras’ilia set to shake up airsports operator INFRAERO ahead of float”).
E ilusão acreditar que esse destaque mostra que entramos no clube dos países centrais no noticiário: familiaridade não significa favorabilidade. Em conversas com professores da Universidade de Londres os temas sobre o Brasil sempre passam (depois de um início positivo) para perguntas sobre violência, infraestrutura e corrupção.
O que realmente é inusitado é a significativa presença de noticias sobre o Brasil na mídia internacional em assuntos de maior relevância.
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*Ramiro Gonçalez é Mestre em Ciências da comunicação FIA USP Engenheiro Produção – POLI. Responsável Inteligência de Mercado – FIA USP. Fundador do Grupo de Engenheiros de Produção da Poli. Membro Conselho editorial ABA – ABEP. Autor do livro “Que Crise é Essa?”. Também edita o blog ‘Que Mídia É Essa?’.
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Publicado em 17/01/2011, em JornaMídia e marcado como Brasil, Financial Times, mídia inernacional. Adicione o link aos favoritos. 1 Comentário.


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